terça-feira, 20 de novembro de 2007

Factual

Meu poema leva um pouco do descaso
Um pouco do desprezo, muito do desespero
Da desgraça humana, da minha vida
Meu poema é meu e de ninguém mais além de nós
Meu poema é o desconserto do relógio
É o tédio
É o tépido da minha cabeça
Esqueça esse discursinho barato
O poema é apenas um fato.
Ele está no ônibus lotado às seis da matina
Na rouquidão do berro por socorro
Na chacina de ontem no alto do morro
Na morte, essa perseguição incansável
No meu bolso, minha carteira vazia
No meu eu tão descartável
Na parede estampando a fotografia
Na minha sede, na minha fome
Na dureza dos olhos secos que deve ter um homem
Na minha voz, no meu silêncio
Na minha carne apodrecida
No cheiro de esgoto que impregna
Naquela menina da rua
Que brinca de boneca-fantoche por uns trocados
No pensamento suicida dos desempregados
Nos restos de comida que é a única refeição do dia
Nas noites em companhia da espera da morte
Na incerteza camuflada pelo pai de família, que tenta ser forte
Na dor de dente
Na constante falta do siso
Na desvalorização da moeda que eu nunca entendi
Na queda ao real
No aumento do preço do pão vosso de cada dia
De que me restam as migalhas, amém.

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