sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Querer ele.
Querê-lo
Pêlo com pêlo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Mais uma estorinha tirada de uma notícia de jornal

João Gostoso era esposo de Maria, desgostosa, que, segundo testemunhas, mal gostava do marido. João Gostoso gostava, porém, da vizinha Aparecida. Gostava tanto que gastava com a gostada e degustada gostosa todo o ordenado.
Maria, então, desgostou ainda mais da situação. Aparecida desapareceu, não dando conta nem a Polícia Federal, e Maria apareceu na capa do jornal.



"Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data." - Luis Fernando Verissimo

E eu ainda acho que isso é mais uma dessas coisas de convenção... Aliás, que dia é hoje? Ando me perdendo no tempo. Ou é ele quem anda correndo apressado e passa. (despercebido).

Céu cinza-cor-de-quando-vai-chover

Os guarda-chuvas andavam apressados. O dia era cinza, um cinza-de-doer-a-vista. Eles não. Os olhares também, como as ruas esburacadas, traziam poças d’água. Mas, talvez pelos furos da alma, eles eram mais profundos. Se bem que nem tanto.

Aula de Literatura. O professor disparava a falar freneticamente como a recitar uma epopéia. Mexia na barba e ria um riso tossido. Não me parecia poético. Nem podia, sequer ouvi uma só palavra.
Aula de Latim. O professor não foi. Talvez achara melhor ficar em casa, esse tempo é bom mesmo é pra ficar em casa. Um sono, um filme, um café, intercalados entre um cigarro ou dois. Eu também achara melhor ficar em casa. Um sono, um filme, um café. De cigarros, não gosto. Mas fui.

Na volta pra casa, o mesmo vazio descolorido. Agora, é verdade, um pouco mais cansada e com fome. Frio não fazia. Nem podia, o ônibus estava cheio. Os corpos se encostavam e se espremiam involuntários, e, ao mesmo tempo, as pessoas se repeliam e, por isso, cada qual estava mais distante. Às vezes, alguém abria a janela e entrava um vento e levava todos os meus pensamentos embora. Frio, não, frio não fazia.

Falar em inferno, a velha preta sentada monologava um diálogo consigo mesmo. Ela perguntava, ela mesma respondia. Dizia algo sobre um assassinato, perguntava sobre o pagamento dos caixões, e respondia que já fora pago. Relatava o “acontecido” (?), se perguntava detalhes, se fazia suspense, falava baixinho como se se contasse segredo. Depois se chamava de mentirosa e repetia incansavelmente “Jesus Cristo é a salvação” e coisas assim. Vez ou outra ela danava a cuspir pela janela. Cuspia um cuspe gosmento, grosso, volumoso, sabe como?

O menino sentado na frente usava um casaco-azul-roubado-do-céu, que, já disse, estava cinza, cinza... Ele balançava as mãos acertando a senhora ao lado, também a cabeça às vezes. Num movimento desarmonicamente ensaiado, batia a cabeça no vidro, retorcia os olhos e gemia, grunhia, talvez falasse um doidês qualquer que eu não entendia.

A senhora, talvez a mãe, uma mãe-assim-com-cara-de-avó, chorava um choro bonito, melancólico, um choro-assim-de-chorar-junto, sabe? O choro quase não se ouvia ou via porque os celulares chamavam desesperados e até brilhavam de azul ou laranja se mexendo. Uns passageiros atendiam e falavam alto. Outros não. “Alô, não, Marquinhos, não resolvi a parada lá ainda não” “Porra, Jussara, te falei pra você que essa porra ia dar pobrema!”. “Amor, não, amorzinho, tô indo pra Serra fazer umas vendas, devo chegar mais tarde hoje”. Pãrãpã---páplash. Tum-tis-tu-tumtu. Tãtã’tãrãnr’an. Os celulares chamavam estranho. Mas, esse ônibus não vai pra Araçás?

Tive medo. Dei sinal, mas ainda estava longe do meu prédio. Era um medo em pânico, um medo apavorado. Um medo-de-deixar-imóvel, medo mesmo. Como nos sonhos, me vi paralisada sob o meio-fio. O medo? Não, o medo não passou, mas aí eu andei e me acostumei com aquele seco no estômago e o gosto de amargo.
Fui comer qualquer coisa no shopping. A praça de alimentação dava pra um esgoto. Aqueles valões que fedem... Tive ânsia de vômito. Andei até minha casa. Pulei poças, em algumas, meti meu pé dentro da minha cabeça. Aí eu parava e a olhava: meu rosto se refazia do desfigurado em ondas circulares. Só que, então, eu me via mais suja. Talvez fosse o barro. Ou a transparência, quem sabe?

Balancei a cabeça pro porteiro. Subi as escadas. Balancei a cabeça pra vizinha que descia. Entrei no meu apartamento, uma bagunça. Tinha uns dez minutos pra me arrumar e as coisas e sair. Tinha trabalho, não sei se posso chamar aquilo assim, mas as pessoas costumavam.

Decidi faltar serviço. Meu chefe talvez pense que, com a chuva, o bairro alagou. Ou, quem sabe, que eu achara melhor ficar em casa, já que esse tempo é bom mesmo é pra ficar em casa. Tanto faz. Um sono, um filme, um café. Até que cairia bem. Não. Quero mesmo é olhar pro céu, fazendo esforço pra não piscar, até que o azul retome seu espaço sem pressa e o dia descinze.
A mudez
é a nudez da voz


O silêncio grita ao meu ouvido.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Entre nós
Nem um oi
Ou um ai
Cairia bem

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Logo ali na esquina
Disse um sábio
Que a vida ensina

À janela

Noite afora
Noite adentro
Lua aflora, eu atento
Na bolsa de mão
Além do isqueiro
Só tem um batom
Amor no mercado
Andei procurando
Queria levar atacado
Saí de mãos abanando

Xeque-mate

Branco e preto
Vida-tabuleiro
Tudo em redor quadrado
Sonho bom de madrugada
Quando bate o sol
Acordo mal-humorada

Meninice

Do lado de fora
Ninguém repara
Por dentro o tempo pára

Pilha fraca?

As horas insistem em suas piruetas
No relógio da parede
Parada
Perco as idéias
Me caem os cabelos
Em mim, só você não tem fim
Chuva lá fora
Janela fechada
Peito aberto de fachada
Cinza, o céu ri
Uma risada amarela
Minhas cortinas vermelhas são testemunhas
Teto de estrelas
Desaba em minha cabeça
Brilhou à beça
Vestido vermelho desbotado
Minha boca empalidece
Meu batom brilha no seu lábio
Dia de sol
Sob a luz
Amar ela
Sábado nublado
Ninguém desce do prédio
Até o sol fica atolado de tédio
Do outro lado da rua
O amor passa
E eu atraverso

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

1ª Lei de Newton

vai vem
vem vai
vai e vem vem e vai
vem e vai vai e vem
vem vai
e e
vai vem

vem vai
e e
vai vem
vai - vem
vem - vai
vai e vem
e
volta
e
vai
gozo
sai
repouso
.
*Desconfigurado (ou reconfigrado?) pelas limitações de edição do blog e da blogger

De parar a estação

Prima Vera quando chega faz tudo florescer
Prima Vera vai embora e vai tudo murchando, o Sol esquenta de raiva e São Pedr se põe a chorar

Embriaguez

O vento balança as árvores
As árvores balançam e me balançam
Num ritmo sensual
O vento toca a minha pele
E os meus pêlos se arrepiam com o suave toque
“Toque, toque Coração Selvagem”
Grito para o cantor singelo com sua viola
Chamo o garçom,
Tomo mais uma dose
E sou tomada pelo tédio
Peço a conta e conto para um bêbado na esquina meus problemas
Peço um cigarro e me despeço
E me esqueço deles, dos problemas, do bêbado, do garçom e do vento.

Vira-lata

Viro a lata
De cerveja
Esperando que me veja e me tenha,
Esperando toda nua, ser só sua e sem senha
Viro a lata
De cerveja
Esperando um sussurro, um sorriso
O despudor fere a murros esse siso
Que me falta
Viro a lata
De cerveja
A vergonha
A lua nova é minha velha companhia
A noite desce medonha
Viro a lata
De cerveja
Esperando um beijo que não tenho
Esperando, toda bela
Viro a lata, viro a noite
À sua espera
No cio, cadela!

Sob outros referenciais

Gira o mundo
Roda a roda
Rio desce
Calor sobe
Sopra o vento
Tudo ao meu redor está em movimento
Ou seria eu?

Censurada

Ando meio sem censura
Rasgo a roupa
Roubo a cena
Xingo a outra
Não sou fina.
Meio puta, bem menina
Acordei com vontade de me dá prazer
Egoísta, sedutora, mulher vulgar
Acordei com tara de desejo
Desejo de gozar
Gozar, gozar da vida, que eu perco em todo canto
E mesmo assim eu canto:
“A beleza de ser um eterno aprendiz”
Que daria até rima

Se de(s)gusta por que degusta?

Ele chega manso
Sussurra ao ouvido
Me acaricia o corpo
Me desfaz o vestido
Vem, com todo ardor,
Faz juras, loucuras
Me prova e re...prova
Só não dá provas de amor

Destinotário

Não me venha com esse papo
Que mactub, tudo está escrito
Não aceito
Eu apago
Escrevo de novo,
Tudo bem melhor e mais bonito
E só por ironia ao destino,
Eu o sacaneio todo dia.

Eu tenho todo o tempo do mundo, agora

Toque
Retoque
Troque o disco
Disque outra vez
Chame o bombeiro
Chama, chama que vou
Eu venho
Eu tenho, meu bem, todo tempo
Toque
Retoque
Põe um rock dançante
Afaste a estante
A casa vai pegar fogo
Toque
Retoque
Provoque
O estoque não pode acabar
Reponha
Toque
Retoque
Coloque as coisas em desordem
É ordem expressa
Expresse
Que tenho pressa pra passar

Em dia de faxina

Esfrego, esfrego, esfrego
Uso quiboa, tento com Bom-Brill,
Desinfetante, detergente
Lavo, então, em água corrente
Tudo tento...é em vão
Em barra e em pó, apelo pro sabão,
Mas essa consciência nada de limpar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Mande chamar o padre pra rezar uma prece. Daqui não me levanto, espalhem cartazes pela cidade, avise à comunidade local. Chame a imprensa que isso é coisa de jornal. E faço até greve de fome se você quiser não ser meu homem.

Ai, que coisas ridículas que a gente anda dizendo.